Pero Vaz de Caminha diz logo na abertura de sua famosa Carta que vai dar
''notícia do achamento desta Vossa terra nova'' que ''nesta navegação se
achou''. O Brasil estava perdido quando foi achado pela armada de Pedro
Álvares Cabral? Que os historiadores resolvam se foi descoberto ou
achado, nós ficamos com outra viagem, a das palavras.
O diligente intelectual, encarregado pelo capitão-mor de informar ao rei Dom Manuel o descobrimento, indica onde e quando escreveu o documento: ''Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500''.
Muito mais do que notícia, faz minuciosa reportagem sobre a descoberta. Uma curiosidade: jamais utiliza a palavra ''caravela'' para designar os tipos de embarcações, denominando-as almadia, batel, esquife, nau.
O trágico viajante utiliza ''achamento'' e ''achou'' logo na abertura. Ele escreveu a carta por acaso, estava a caminho da feitoria portuguesa de Calicute, para a qual tinha sido nomeado escrivão. Ia tomar posse. Em dezembro de 1500, aos 50 anos, lá morria nas mãos dos mouros.
O verbo que utilizou para designar o descobrimento, achar, veio do latim afflare. À semelhança de tantos outros verbos latinos, nascidos da intimidade dos romanos com a agricultura e com a navegação, tem suas raízes na observação do tempo e nas atividades de caça. Como nós, hoje, eles achavam que ia chover ou fazer sol, achavam que a caça tinha passado ali ou acolá, procedendo como os cães, que a farejavam.
O latim vulgar retirou uma das consoantes, consolidando aflare, formado a partir de ad flare.
Outro verbo do latim culto, fragrare, exalar odor forte ou agradável, está na origem de fragrância, mas veio a consolidar-se no latim vulgar como flagrare, arder, passando a significar surpreender os praticantes do ato na hora mesma em que é executado, de que é exemplo a expressão jurídica, dele derivada, flagrante crimine, crime comprovado durante a ocorrência ou logo após a consumação.
Se o Brasil foi achado, estava perdido. E sua descoberta foi redescoberta.
Como muito bem alega Reinaldo Pimenta em A casa da Mãe Joana (Editora Campus), a seção de Achados e Perdidos é contraditória. Se os objetos foram achados, não estão mais perdidos. Perdido está aquilo que não foi encontrado.
Achamos outro modo de escrever nossas cartas e começamos por onde Pero Vaz de Caminha terminou a sua: local e data.
[Jornal do Brasil, 8/3/2006.]