PALAVRA PUXA PALAVRA: À LUZ DA ETIMOLOGIA - II
Gabriel Perissé


"Toda língua são rastros de velho mistério", disse Guimarães Rosa.

A etimologia não chega a ser uma ciência, pelo menos no sentido rigorista do termo. Constitui uma disciplina, um método com o qual recuperamos o vigor de palavras que pronunciamos diariamente.

Perseguir as pistas que o passado deixou nas palavras é uma das melhores formas de reencontrar nossas heranças e fazer um exercício de reflexão sobre quem somos, homo sapiens e homo loquens , seres que concretizam na linguagem o seu saber.

Saber lembra sabor, dois conceitos etimologicamente vinculados. O ser humano que saboreia a realidade é mais sábio, é mais humano.

E ser humano é ser aquele que sabe ter nascido do húmus, da terra (a propósito, em sua tradução do Gênesis Terroso , um neologismo perfeito para a noção que reside na palavra hebraica).

Nesse palavra-puxa-palavra, o ser humano descobre que é mais humano quando pratica a humildade, virtude que nada tem de rebaixamento, mas é a qualidade de quem emerge do húmus, do barro, e mantém os pés no chão.

Sem dúvida, a etimologia pode dar pé a explicações absurdas, a "chutes" (para fora) do ponto de vista filológico.

Como no caso da palavra cadáver , que seria composta, na imaginação dos etimologistas medievais, pela primeira sílaba de cada uma das três palavras da frase latina carnem data vermibus (carne entregue aos vermes).

A etimologia pode dar margem também a especulações jocosas, como a que Tim Maia fez sobre a palavra robótica , associando-a ao verbo "robar" - eu robo, tu robas, todos robam... ou a constatações que só se tornam incontestáveis depois de apontadas, como a de Carlos Drummond de Andrade: "o imposto se chama imposto porque é imposto."

As palavras ganham novos coloridos com o tempo e pela etimologia podemos aquilatar as "camadas de tinta" que estão por baixo.

Um curioso exemplo é o da palavra museu . O museu remete às musas, entidades encarregadas de preservar as artes e de lembrar aos seres humanos que podem subir ao Olimpo, aos céus, e partilhar com os deuses a beleza e a imortalidade.

Entre as musas estão a poesia, a história, e, sobretudo, está a música (óbvio, não?), que Gilberto Gil cantou: "Minha música, musa única...".

A etimologia faz-nos ouvir a música que adormeceu nas palavras.


[Gabriel Perissé é autor dos livros "Ler, pensar e escrever" (Ed. Arte e Ciência), "O leitor criativo" (Omega Editora) e do recém-lançado "Palavra e origens" (Editora Mandruvá).]

Publicado no jornal Correio da Cidadania


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