ORIGEM DE "PICADO PELA MOSCA AZUL"
PAULO QUEIROZ

Política em Três Tempos


1 - CERTA MOSCA AZUL


Consta que apenas aos mais chegados Rui Barbosa confessou que situação mais vexatória que viveu não foi, como se pensou, a suprema humilhação de ser derrotado pela correspondência européia de Epitácio Pessoa na eleição presidencial de 1919.

Pois é, leitor, no Brasil já teve presidente eleito que passou a campanha eleitoral inteira na Europa e só botou os pés no país quando teve de tomar posse. Foi assim. Eleito para um segundo mandato em 1918 (cumprira o primeiro de 1902 a 1906), Rodrigues Alves não chegou a tomar posse. Morreu no início de 1919. Em seu lugar, na condição de presidente em exercício, governava Delfim Moreira. Como Rodrigues Alves morreu antes que se completasse mais da metade do mandato, o mandamento constitucional exigiu que se convocasse nova eleição.

Ocorre que as disputas de bastidores entre gaúchos, paulistas e mineiros chegaram a um impasse e para o governo a solução foi buscar um nome para a candidatura oficial que não perturbasse o equilíbrio de poder da época, obtido pela alternância entre Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais.

Favorecido pela projeção dentro e fora do Brasil, o paraibano Epitácio Pessoa, mesmo em viagem pelo exterior, chefiando a delegação brasileira na Conferência de Paz, em Paris, calhou de ser o escolhido para assumir a postulação do governo. Não obstante enfrentar o candidato palaciano significar, na época, dar murro em ponta de faca, Rui Barbosa se atreveu. Talvez contasse com o fato de que o adversário estaria fora do país. Não adiantou. Teve menos da metade dos votos dados às missivas de Pessoa.

Mas a chateação de que tanto Rui se queixava ocorreu durante a campanha. Além do aspecto de missão impossível de que se revestia a empreitada, era a terceira vez que ele tentava. Por isso, ao comentar a iniciativa, o jornalista Sertório de Castro pretendeu dar a medida da teimosia do baiano escrevendo que Rui fora "fitado pela mosca azul". Poucas vezes uma expressão remeteu uma candidatura tão depressa da respeitabilidade à galhofaria.

Hoje se diz, usando uma corruptela da frase original, que um determinado fulano foi "picado pela mosca azul", e o considerado não está nem aí.

"O tempora, o mores!" Naquela época, o eleitorado inteiro era também a elite cultural do país e o efeito foi devastador. Dizer-se de alguém que fitara ou fora fitado pela mosca azul era uma gozação só. Como se tentará explicar a seguir.

2 - PODER, RIQUEZA E GLÓRIA

"A Mosca Azul" vem a ser um dos mais belos e célebres poemas de Machado de Assis. Em 1919, era como um sucesso de Roberto Carlos - não havia quem não o recitasse de cor e salteado.

"Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,
Filha da China ou do Indostão,
Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada,
Em certa noite de verão...

Um poleá que a viu, espantado e tristonho,
Uma poleá lhe perguntou:
Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,
Dize, quem foi que to ensinou?.

Então ela, voando, e revoando, disse:


- Eu sou a vida, eu sou a flor
Das graças, o padrão da eterna meninice,
E mais a glória, e mais o amor".


Nesse ponto é que o bicho começa a pegar. O poleá fixa o olhar no inseto e, num processo de auto-hipnose, vai ao transe.


"E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo,
E tranqüilo, como um faquir,
Como alguém que ficou deslembrado de tudo,
Sem comparar, nem refletir.

Entre as asas do inseto, a voltear no espaço,
Uma cousa lhe pareceu
Que surdia, com todo o resplendor de um paço
E viu um rosto, que era o seu.

Era ele, era um rei, o rei de Cachemira,
Que tinha sobre o colo nu,
Um imenso colar de opala, e uma safira
Tirada ao corpo de Vishnu".


Seguem-se visões fantásticas, delírios de poder, força, riqueza e glória.


"Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas,
Aos pés dele, no liso chão,
Espreguiçam sorrindo, as suas graças finas,
E todo o amor que têm lhe dão...

Vinha a glória depois; - quatorze reis vencidos,
E enfim as páreas triunfais
De trezentas nações, e o parabéns unidos
Das coroas ocidentais".


No melhor da festa, vencido pela curiosidade, o poleá arrebata a mosca azul e parte com ela para casa.


"Alvoroçado chega, examina, e parece
Que se houve nessa ocupação
Miudamente, como um homem que quisesse
Dissecar a sua ilusão.

Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,
Rota, baça, nojenta, vil,
Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela
Visão fantástica e sutil".


O sonho acabara, mas a história não. E é no desfecho que está o motivo da indignação de todos acerca de quem se dizia terem sido fitados pela mosca azul.


"Hoje, quando ele aí vai, de áloe e cardamomo
Na cabeça, com ar taful,
Dizem que ensandeceu, e que não sabe como
Perdeu a sua mosca azul".


Machado não teve a intenção de humilhar ninguém. A transposição da alegoria para a política, operou-a Sertório de Castro.


Não dá para ler Machado sem um dicionário à mão. Poleá é a designação para indivíduos inferiores no sistema de castas indiano. Por aqui, seria algo como pária, desocupado. Vishnu é uma deidade hindu. Aloé e cardamomo são plantas típicas da Índia.

Já um "ar taful" é aquela expressão ao mesmo tempo alegre e atoleimada exibida pelos doidos mansos, por assim dizer, quando dados a manifestações efusivas. As boas maneiras impedem o repórter de citar algumas figuras públicas locais como exemplos.

Com mais ou menos intensidade, salvo as exceções que confirmam a regra, o simples ato de registrar uma candidatura deixa todos que o fazem vulneráveis ao "efeito mosca azul". Quem disputa uma eleição tem, invariavelmente, delírios vendo-se no cargo.

Por menor que sejam as probabilidades do candidato, o "efeito mosca azul" anula o seu senso crítico e o impede de enxergar a realidade. É uma das mais fortes eclosões do auto-engano, esta que leva o indivíduo a acreditar piamente no imponderável.

O "efeito mosca azul" está em expansão. Diante de fenômenos como Ivo Cassol, Fátima Cleide e Roberto Sobrinho, não são poucos os que esperam contar com o mesmo fado. Depois, não saberão como perderam a "mosca azul" e andarão pelas ruas com ar taful.


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