(Deonísio da Silva)
A derrota é uma vacina de humildade; quando o sujeito ganha muito,
começa, sem querer, a chamar Deus de colega, mas a derrota ensina muito
mais do que a vitória. Quem disse isso foi o novo morador de um
condomínio de Canela (RS), pai de trigêmeos, recomeçando a vida sem a
política. Era Antônio Britto falando à jornalista Tatiana Csordas.
Jornalista também, ele já era muito conhecido do público por seu trabalho como repórter na RBS e na TV Globo, quando o presidente Tancredo Neves convidou-o a ser seu porta-voz. E veio a derrota coletiva, imposta pelo destino, anunciada em doses cavalares. Com olheiras que denunciavam o sono perdido, o porta-voz entrava nos telejornais matinais para informar ao distinto público que prosseguia o calvário doloroso do enfermo, submetido a intervenções cirúrgicas sucessivas.
De porta-voz do presidente que não assumiu, Antônio Britto tornou-se ministro da Previdência do vice que assumiu. Foi depois governador do Rio Grande do Sul. Tentando a reeleição, perdeu para Olívio Dutra e, quatro anos depois, para Germano Rigotto, o governador atual.
Pois a derrota tem expressões muito curiosas na língua portuguesa, entre as quais "perder a cabeça", "perder as estribeiras", "perder o juízo", "perder a tramontana", "perder o fio", "perder o dia" e "perder o tempo e o latim".
Cada uma dessas expressões tem o seu berço, a sua história, os caminhos que fez até consolidar-se na língua portuguesa. Outras línguas têm expressões equivalentes. Como observa Raimundo Magalhães Júnior, Carlos de Laet censurou em romance de Camilo Castelo Branco a presença da frase "perder a cabeça", acusando-o de galicismo. Afinal o francês tem "perdre la tête". E poderia ser anglicismo, pois os ingleses têm "lost the head". Camilo argumentou que dizíamos "perder o juízo, o tino, a razão". Literalmente, ninguém perde a cabeça, pois o juízo, o tino e a razão, quando perdidos, ficam dentro da cabeça e o sujeito a mantém sobre os ombros. Afinal, perder a cabeça não é o mesmo que ser decapitado.
O galicismo é um vício de estilo. Consiste em afrancesar vocábulos ou expressões sem necessidade.
"Perder as estribeiras" é variante de "perder os estribos". O cavaleiro que perde estribeiras ou estribos, não tem onde se firmar, dependendo apenas das rédeas nas mãos e dos joelhos que aperta na sela. Está perdido porque o cavalo poderá derrubá-lo facilmente.
"Perder a tramontana" é perder o rumo. Tramontana é o outro nome da estrela polar, que orienta viajantes e marinheiros. "Perder o tempo e o latim" alude a sapateiro romano que treinou um corvo para saudar vitórias de Augusto. O imperador já comprara um papagaio e uma pega que lhe elogiavam os feitos. Como o corvo não aprendesse a falar, o homem lamentou que perdera o tempo e o latim. O corvo repetiu esta última frase e o imperador pagou mais por ele do que pelas outras aves. Quer dizer, o sapateiro não perdeu o tempo e o latim!
"Perder o dia" vem de exclamação do imperador Tito ao fim do dia em que não fizera uma boa ação.
A derrota pode ser uma boa professora. A vitória raramente o é.
[Jornal do Brasil, 31 out. 2005.]