ORIGEM DE "O QUINTO DOS INFERNOS"

Prof. Cláudio Moreno


Esta é uma daquelas expressões misteriosas que desafiam o pequeno etimologista que dorme dentro de cada um de nós. Apesar das muitas explicações que já foram propostas para sua origem, a controvérsia continua viva - a começar pela forma, pois uns dizem quinto, outros quintos. Os que preferem quintos associam-na ao imposto de 20% cobrados pela Coroa Portuguesa sobre todo o ouro fundido no Brasil, no período colonial; falava-se em quintos mais ou menos como hoje ainda se fala em décimas, no sentido tributário. Em Parati, por exemplo, ainda se pode ver a velha Casa dos Quintos, e o navio que levava a Lisboa o produto dessa arrecadação era a nau dos quintos. Os brasileiros, por causa da antipatia que votavam a esse tributo, teriam então agregado a locução dos infernos. Pode parecer uma teoria engenhosa, mas está totalmente divorciada do significado da expressão. Além disso - o mais importante, a meu ver -, ela também é usada em Portugal e na Espanha (quinto infierno), o que exclui a hipótese de ter sido criada aqui na Colônia.

Outros dizem que o inferno, em algumas culturas, é dividido em vários níveis, sendo o quinto um lugar particularmente odioso, ideal para se mandar um desafeto. Ora. nos sistemas infernais que conheço (nunca fui; apenas repito as informações de quem lá esteve), nada há de tão especial no quinto. No Islã, o pior de todos é o sétimo, reservado aos hipócritas que fingem seguir os princípios do Alcorão. Importantes textos do budismo descrevem 18 infernos, onde a alma danada é submetida a torturas insuportáveis - sem que nada de especial destaque o de número cinco. Para o bramanismo, há 16 infernos, não necessariamente seguindo uma ordem de rigor e punição; o quinto é reservado para aqueles que agem traiçoeiramente com os amigos e prestam falso testemunho (o sétimo, muito merecidamente, é reservado para quem rouba do rei ou copula com a rainha).

Os espíritos mais literários atribuem a expressão a Dante Alighieri - mais uma vez, sem fundamento. Uma das três partes da Divina Comédia descreve o Inferno (não "os infernos"), concebido topograficamente mais ou menos como o garimpo da Serra Pelada (uma montanha com círculos descendentes). São nove os círculos infernais; em cada círculo são punidos diferentes tipos de pecados. No quinto, que é um dos menos impressionantes, ficam os iracundos (que foram tomados pela ira) - nada que se relacione com a nossa expressão. Podem também deixar a Grécia fora dessa. Quem examinar os textos de Homero, Hesíodo, Platão, entre muitos outros, verá que os próprios gregos não chegavam a um acordo sobre a topografia de seus infernos. Não há dúvida de que o Tártaro é um local de punições (onde ficam Tântalo e Sísifo, hóspedes ilustres), e de que os Campos Elíseos são o "bairro" mais privilegiado; no entanto, há divergências irreconciliáveis a respeito da localização do mundo de Hades, da posição de suas entradas, da sua divisão geográfica e da distribuição dos mortos pelas diferentes regiões. Aliás, fosse ela uma expressão de nossa herança greco-romana, deveria estar presente na maioria das línguas européias, como aconteceu com o calcanhar de Aquiles, o presente grego ou o pomo da discórdia, entre tantas.

A origem mais provável deve ser o mundo católico, embora o Francês e o Italiano, línguas de países tradicionalmente católicos, não a conheçam. Bernardes afirma, em sua Nova Floresta (século 18): "...quatro são as concavidades ou repartimentos da casa do inferno". Para minha surpresa, a gigantesca Catholic Encyclopedia confirma que, como disse o nosso bom padre, os teólogos antigos realmente distinguiam quatro infernos: (1) o Inferno propriamente dito; (2) o limbus parvulorum ("o limbo das crianças"), para os pequenos pagãos que morreram sem ter outro pecado que não o original; (3) o limbus patrum ("o limbo dos Pais"), onde ficam as almas dos justos que morreram antes da vinda de Cristo; e (4) o Purgatório, onde as almas dos justos passam por um estágio de purificação. Embora eu não seja religioso, estudei em escola pública e tive aulas regulares de catecismo (que eram obrigatórias, na época); juro que, na minha cabeça distraída, havia um Inferno propriamente dito, onde queimavam as almas danadas, e outras estações transitórias, o Limbo e o Purgatório, de onde as almas seriam liberadas ao menos no dia do Juízo Final. Não me consta que essa idéia de quatro infernos tenha estado presente no imaginário de nossos antepassados portugueses a ponto da linguagem popular ter criado esse quinto estágio, mais remoto ainda. Essa, entretanto, continua sendo a hipótese mais plausível que encontrei.

Acrescento que cresci ouvindo essa expressão, não no sentido de amaldiçoar alguém, mas sim para indicar um lugar remotíssimo, algo que fica muito longe, lá nos confins - assim como nos cafundós-do-Judas, lá onde o diabo perdeu as botas, lá onde o vento faz a curva, lá no fim do mundo, no fim da galáxia, na Conchinchina ou lá onde Cristo perdeu o poncho.


E-Mail: claudio.moreno@zerohora.com.br

(Porto Alegre, 12/12/2004 - Jornal Zero Hora, Edição nº 14357)


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