o GÊNERO DE "TSUNAMI"

Pasquale Cipro Neto


Consumada a tragédia na Ásia e na África, muitos leitores escreveram para perguntar por que "tsunami" aparece nos meios de comunicação ora como palavra masculina ("o tsunami"), ora como feminina ("a tsunami"). O leitor Otávio Perricelli vai além e pergunta se não deveria haver acento ("tsunâmi") ou se, por ser estrangeira, essa palavra não deveria vir entre aspas ou grafada em itálico.

Vamos por partes. O que define o gênero de uma palavra é o uso. As palavras não têm sexo; têm gênero. O vocábulo "cadeira" não é feminino porque em seu âmago existe uma alma feminina. É feminino simplesmente porque o uso o consagrou como tal. É pelo fator uso que, em português, "ponte" é palavra feminina ("a ponte"), mas, em italiano e em espanhol, é masculina ("il ponte" e "el puente", respectivamente). Não é por acaso que a mais charmosa das pontes de Florença se chama "Ponte Vecchio".

Posto isso, permita-me fazer-lhe uma perguntinha: no dia-a-dia, como tem sido usada ao longo dos tempos a palavra "tsunami"? No masculino ou no feminino? É claro que em nenhum dos dois. Até o mês passado, muita gente nem sequer sabia da existência dessa palavra, que, por sinal, vem do japonês (o "Houaiss" informa que "tsu" é "porto", "ancoradouro", e "nami" é "onda", "mar").

Como proceder nesses casos? Imagino que a primeira reação de quem tem esse tipo de dúvida seja consultar dicionários (ou o "Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa", publicado pela Academia Brasileira de Letras). Dos dicionários mais recentes ("Houaiss", "Novo Aurélio Século XXI" e "Michaelis", entre outros), o único que registra a palavra é o "Houaiss", que define o vocábulo como "vaga marinha volumosa, provocada por movimento de terra submarino ou erupção vulcânica" e o classifica como substantivo masculino. O "Vocabulário" confirma o que está no "Houaiss". E de onde o "Houaiss" e o "Vocabulário" terão tirado a conclusão de que a palavra é masculina? Teoricamente, obras como essas se apóiam num determinado "corpus", que, no caso, certamente é formado por publicações específicas, livros técnicos etc., uma vez que a palavra "tsunami" tem uso restrito a esse tipo de publicação, em que, supõe-se, costuma aparecer como masculina.

Qual terá sido, então, a razão de alguns dos meios de comunicação terem optado pelo gênero feminino ("a/s tsunami/s")? Uma velha conhecida: a influência de sinônimos muito mais usados e conhecidos. Como "tsunami" significa "onda", "vaga", que são palavras femininas...

E como fica a grafia, ou seja, deve-se empregar o acento circunflexo, o que significaria seu aportuguesamento? A questão é complicada. Como se sabe, não temos padrão rígido em relação a isso. Até hoje, grafamos "show" (e não "xou", se fosse aportuguesada) e "diesel" (embora o "Houaiss" e o "Vocabulário" já registrem a variante "dísel", aportuguesada), mas já nacionalizamos "fôlder", "pôster" e tantas outras. O tempo dirá. "Tatâmi", por exemplo, já aparece com acento no "Houaiss" (que registra também "tatame").

É bom não esquecer que, se a palavra não é aportuguesada, convém grafá-la em itálico (como faz o "Houaiss") ou entre aspas. Se o vocábulo for aportuguesado ("tsunâmi" ou "tsuname"), haverá acento em "tsunâmi", já que paroxítonas terminadas em "i" recebem acento gráfico. É isso.


[Folha de S. Paulo, 13 jan. 2005.]


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